sexta-feira, 25 de setembro de 2009

Amiga

Amiga


Amiga,
lavei os pratos,
mas a mágoa
mastigou-me
o inteiro dia
— esse pedaço
de carne crua
com nervos difíceis
aos dentes,
que sou —.
Se ao menos
eu pudesse banhar
meus pés
na bacia de ágata
do meu avô,
não perdoaria tanto
meus sentimentos
mesquinhos
e debruçaria-me
sobre o balcão
sem rir
e seria
mais triste e grave
e, claro, vestiria luto
por tudo
que foi morto
na minha e tua amizade.
Mas, como vês,
Não sei da bacia branca
donde eu sairia
apaziguada.

Micheliny Verunschk

quarta-feira, 23 de setembro de 2009

Não sei como dizer-te que minha voz te procura
e a atenção começa a florir, quando sucede a noite
esplêndida e casta.

Não sei o que dizer, especialmente quando teus pulsos
se enchem de um brilho precioso
e tu estremeces como um pensamento chegado. Quando,
iniciado o campo, o centeio imaturo ondula tocado
pelo pressentir de um tempo distante,
e na terra crescida os homens entoam a vindima,
- eu não sei como dizer-te que cem idéias,
dentro de mim, te procuram.

Quando as folhas da melancolia arrefecem com astros
ao lado do espaço
e o coração é uma serpente inventada
em seu ascético escuro e em seu turbilhão de um dia,
tu arrebatas os caminhos da minha solidão
como se toda a minha casa ardesse pousada na noite.
- E então não sei o que dizer,
junto à taça de pedra do teu tão jovem silêncio.
Quando as crianças acordam nas luas espantadas
que às vezes caem no meio do tempo,
não sei como dizer-te que a pureza,
dentro de mim, te procura.

Durante a primavera inteira aprendo
os trevos, a água sobrenatural, o leve e abstrato
correr do espaço -
e penso que vou dizer algo cheio de razão,
mas quando a sombra vai cair da curva sôfrega
dos meus lábios, sinto que me falta
um girassol, uma pedra, uma ave - qualquer
coisa extraordinária.
Porque não sei como dizer-te sem milagres
que dentro de mim é o sol, o fruto,
a criança, a água, o deus, o leite, a mãe,
o amor,

que te procuram.

(Heberto Helder)

quinta-feira, 17 de setembro de 2009

Capricórnio

Outono Marítimo, brisa da costa
Saindo do mar seu verdor radia
A marcha sem trote, o bálsamo forte
Livre de ciência e da teologia

É vida térrea que se funde
Ao mar horizontal, barro e sal
Ao olhos nus até se confunde
A Quilha com seu próprio pontal

Draconiano Peixe-Cabra
Em veneta maciota, aporta divino
Ao surgir teimoso, cêntuplamente viçoso
Carne do segredo e do refino

Com pragmática letalidade
Se arranca do peito jovial
Mas deixa patas e caudas
Na deprimência natural

Vinde veloz, com os cornos à frente
A colisão faz da vida nova semente
O brado crescente, o saber profundo
Teu passar é o mistério do mundo.

Da amiga Danny.

segunda-feira, 14 de setembro de 2009



Era março,
Você tocava flauta com seus dedos de louça
Sacudia a cabeça - desbotada e itinerante-
Olhos de carvão molhado, pele de alabastro
_ Não é bonita, Deus não quis.
O ritmo anguloso dos versos de teus dedos
Tinha qualquer coisa de pássaro suicida que ainda não descobriu o oceano.

quarta-feira, 9 de setembro de 2009

É dia de Casamento!



"Aqueles dois acreditam em Papai Noel. Hoje é o dia do grande amor. Mas em sete anos ela irá fugir com outro ou ele terá encontrado uma garota mais nova. A linda casa será vendida e os filhos dispersados".(Trecho do filme "O homem que amava as mulheres", roteiro de François Truffaut).

terça-feira, 8 de setembro de 2009


Não quero secar as tuas lágrimas, não resta piedade em mim para isso.
Não quero pronunciar teu nome, palavra opaca, gasta e indecisa.
Não quero a superfície líquida de teus olhos de cavalo velho.
Ninguém te amou mais do que eu, no entanto, tu permaneces distante:
Esfinge de papelaria
Destroço de navio
Sol de inverno.

Não quero a graça musical do teu sorriso,
(Para mim bastam as notas dissonantes da tua existência)
Notas capazes de erigir o caos e apodrecer a beleza das crianças.