quinta-feira, 6 de agosto de 2009

Portão da minha casa


Era um portão velho, porém de aspecto não repulsivo. Dias atrás eu e minha mãe havíamos repintado sua origem branca, resgatando seu tempo de glória de portão recém instalado para proteger a casa. Os estranhos e os olhares curiosos temiam a brutalidade branca e rígida do portão. Suas pontas, em direção ao céu, como lanças, indicavam que sua valentia se estendia até ao grande azul. O portão fora soldado ao cimento do muro e, à noite, muro e portão discutiam peripécias do ofício. Certo tarde, o céu adquiriu tons de cinza, seguido por um vento mal-humorado e intrometido. Derrubou os vasos de plantas e assustou os gatos da vizinhança. De repente, um estrondo. Um trovão? Com tal intensidade teria sido perto de casa? O trovão fora de um som metálico. Meu pai abre a porta, uma luz clareia a tempestade, um carro embrenhado nas entranhas do portão. O pára-choque encravado nas grades brancas, agora descascadas pelo impacto da batida, revela a cor primitiva do portão. Dos braços arrancados, resta apenas um, ainda soldado ao muro.

2 comentários:

Márcio Bergamini disse...

"à noite, muro e portão discutiam peripécias do ofício"

Eu acho essa imagem tão interessante =]

tira o "(fato verídico)"

=P


=*

jh.sil disse...

Lembrou-me da briga do edifício Itália e do Hilton hotel, na avenida Ipiranga, hehe.