quinta-feira, 6 de agosto de 2009

Deus?


Desde criança eu temia Deus, as religiões dizem que devemos amá-lo, mas eu nunca amei Deus, eu o temia. Em meus sonhos infantis ele era sempre uma figura assustadora a cobrar-me fé. Tinha pesadelos com Deus que me faziam acordar assustada no meio da noite. De toda a família, aparentemente, eu era a única herege. A criança sem Deus da casa. Não por rebeldia, mas a religião sempre me foi algo estranho e incômodo. Ir à igrejas, ajoelhar, ingerir uma massa de pão embebida em vinho com a idéia de que aquilo era o corpo e o sangue de Cristo, isso era tão esquisito, ingerir sangue de alguém. Eu era criança, não gostava de vinho e pensava “O sangue de Deus é forte, não tem sabor agradável”, “Meus joelhos doem nessa tábua de madeira”, “A massa da hóstia gruda no céu da boca e incomoda”, “Por que Deus dói tanto?”. Deus, em meus nove anos, ficava reduzido às palavras complexas que eu ouvia da boca dos padres. Eu não gostava de padres, eles tinham cheiro de coisas velhas e falavam de um modo amável que não me agradava. Certa noite, em orações, que para mim pareciam mais códigos do que fé, pedi que Deus se manifestasse para mim, que me provasse sua existência, o resultado foi outro pesadelo. Nunca sonhei com o diabo, embora sempre falassem dele, ele não me amendrotava, afinal ele não exigia nada de mim, Deus não, estava lá, todo tempo, nas histórias que minha vó contava, nos latidos dos cachorros à noite, nos cantos escuros da casa velha, debaixo da minha cama, com seu grande olho que tudo vê, sempre a me exigir fé. Deus me perseguia até no banheiro e, em pensamento, me perguntava se Deus me acusava por não ter lavado direito os pés ou por ter não conseguido decorar o credo. Isso me deixava triste e a idéia de Deus me doía no peito. Com o tempo, graças à idade, não fui mais obrigada a ir à igreja por meus pais e, aos poucos, lentamente, como o andar de uma lagarta, Deus foi se distanciando e pude respirar com tranqüilidade, sem culpa de não crer.

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