quarta-feira, 29 de julho de 2009

A primeira noite de um homem





Tá, é estranho, eu, uma mulher falando da primeira noite de um homem.Mas digamos que gosto de ser diferente. Quando se usa a expressão "a primeira noite de um homem" logo pensamos na primeira vez de um homem com uma mulher. As coisas mudaram e a sociedade também, só não enxerga quem não quer. Bom, esse post é sobre um filme que assiste, muito interessante, por sinal, o filme se chama "C.R.A.Y.Z: LOUCOS DE AMOR", de Jean-Marc Vallée. Em resumo, no dia 25 de dezembro de 1960, Zachary Beaulieu vem ao mundo. É o 4º entre 5 irmãos, todos meninos. A infância de Zachary é marcada pelos aniversários natalinos em que seu pai (Michel Côté), invariavelmente, encerra a festa imitando Charles Aznavour. O menino detesta o Natal por que tem que dividir sua festa com Cristo, e seu aniversário passa quase sempre desapercebido. Zachary se sente diferente dos outros meninos, sem saber por quê, o pai diz-lhe que não quer um filho "borboleta", o menino tem medo e reza todas as noites para não ser o filho "borboleta" do pai. A delicadeza do menino chama a atenção de sua mãe, que o leva a uma espécie de profetisa. Essa, fazendo carinho em Zarchary, diz-lhe que ele tem um dom, que era só dele dentre os irmãos, por isso tinha que ser mais forte que os outros por causa desse dom que deus lhe tinha reservado. O menino cresce, se torna ateu. Sua adolescência traz a descoberta de uma sexualidade diferente e sua negação profunda para não decepcionar a família. E a maturidade, enfim, chega com uma libertadora viagem mística por Jerusalém, a cidade que sua mãe sempre sonhou conhecer. É em Jerusalém que Zachary tem sua primeira noite com outro homem e assume para si mesmo sua homossexualidade. Enfim, um filme lindo, sem mais nenhum comentário.

sexta-feira, 24 de julho de 2009

Proust


A mãe não vem, o menino não dorme.
O amor do menino dói entre as farpas do travesseiro.
O elástico, estático sobre o criado-mudo espelha
Os olhos do menino

A mãe não vêm, o menino não dorme.

O menino levanta, pega o elástico ainda não revelado
Estica, puxa, os dedos pequenos têm força
O amor do menino estica nas proporções do elástico.

A mãe não vêm, o menino não dorme.

O elástico revela sua grandiosidade, contorcendo-se dolorosamente para atender ao desejo de expansão do menino.
Sua fibra resiste com bravura ao movimento dos dedos inocentes e furiosos.


A mãe não vêm, o menino não dorme.
O elástico não rebenta e sofre o amor da noite toda.

quinta-feira, 16 de julho de 2009

Ânsia


O filho tem ânsias de vômito quando o pai se aproxima; a mãe de vestido decotado e velho, entoa canções de cabaré, tem leite azedo derramado no chão da cozinha. Encolhido dentro de si mesmo, ele ainda respira. Uma sensação de desamparo recaí sobre o menino, quer gritar, quer enfrentar o pai, bater na cara dele até arrancar-lhe sangue. Quer xingar a mãe, dizer-lhe que a odeia. Não bate no pai, não ofende a mãe, não se mexe, fica imóvel, paralisado pela emoção da existência fútil. A ânsia de vômito volta. A porta dos fundos está aberta, lá fora está escuro, segura o vômito com os lábios apertados e dispara pela porta com seus pés descalços que mais parecem facas alternadas. No escuro, ainda respira com dificuldade. Não há luz, apenas vaga-lumes ao longe piscam delicadamente. Os pés na grama gelada reclamam a dor de pisar sem proteção. Quer gritar, quer desafiar Deus, quer odiar a si mesmo. Não o faz, engole mais uma vez o vômito, olha para a luz fraca dos vaga-lumes, olha para a porta de fuga, sente os pés latejando, e começa caminhar lentamente para o lugar de onde saíra às pressas.

sábado, 11 de julho de 2009

Lynch, Polanski e o E.T






Acabei de assistir "Eraserhead" do David Lynch e a imagem daquele "bebê" ( na verdade parece mais o E.T do Spiellberg quando bebê) fica me perseguindo. Apesar da maioria classificar como horrível a pequena criaturinha de cabeça melada e grande, eu senti compaixão por aquele bebê durante a maior parte do filme. Ele era horrível, mas era um bebê. Pensei em outro bebê, também horrível, ou melhor demoníaco, para ser mais condizente com o filme "O bebê de Rosemary" do Roman Polanski. Aliás, um dos meus filmes preferidos dele, por sinal. Todos esses "bebês" são horríveis, mas não deixam de inspirar uma certa compaixão, talvez afeto por eles, pelos simples fato de serem bebês. Podem ser até monstrinhos de cem olhos, famintos e repulsivos, mas só pelo fato de serem bebês parece que se tornam menos culpados de sua repugnância.

Hoje acordei meio barata


Resolvi expor hoje um enigma na minha vida, é claro que existem muitos, ai se não existissem, o tédio seria ainda maior, mas deixo o tédio para Fernando Pessoa e vou falar sobre essa letra misteriosa e reveladora chamada K, Josefh K., mais precisamente. Faz dois dias começei a ler "O castelo", de Franz Kafka. Já conhecera Kafka de " A metamorfose" e "O processo". O caráter sufocante desse último se repete: a burocracia engolindo tudo e tornando a vida do ser humano insuportável. O absurdo burocrático é, na maioria das vezes, o tema principal das obras de Kafka. Até o homenzinho-barata "Gregor Samsa" pode ser considerado uma representação alegórica da pressão trabalhista burocrática. Mas o mais interessante, quando se lê Kafka e se pensa em Kafka, não são os temas, mas o modo como ele conseguiu em uma linguagem límpida, não simbólica, explorar isso. O que se lê em Kafka é justamente o que está ali, o sentido literal mesmo, porém esse sentido como era de esperar de um gênio como Kafka atinge o estatuto de alegórico. Mas aí me vêem outras inquitações e outros enigmas (como que coisa poderosa é essa alegoria !) e como um homenzinho doente, q era kafka, consegui se tornar muito mais que um escritor, mas um persongem autor ficcional. Kafka não é só um autor, mas fez dele mesmo um personagem literário para representar o absurdo da existência.

Gênesis

Resolvi reativar esse blog. Confesso que já tinha quase o abandonado, mas uma tarde chuvosa de sábado resgatou o elo perdido. Talvez foi a chuva, ou a aventura da geladeira nova ( essa realmente é um encanto) ou, ainda, a tarefa sufocante de compreender os labirintos do castelo de Kafka. Enfim, sejam bem-vindos!!!